Dias Perfeitos

... eu pensei em mim, eu pensei em ti, eu chorei por nós...


Já ouvi dizer que o homem é o conjunto de suas obras, ter orgulho de um detalhe é se fechar para muitas outras, é ser fútil e eu sou complexo demais para me resumir na minha sexualidade, pensando assim me resolvi de verdade e reduzi os apontamentos, continuo gay, porém, hoje sou mais humano... Mas entendo completamente o propósito principal da parada do orgulho glbt (não sei se essa é a sigla atual), para se levantar a bandeira arco-íris muito sangue foi derramado, muitos Homens de coragem morreram, outros foram espancados, outros sofreram. Por ser diferente da opinião da massa? Talvez sim, talvez não... a massa é hipócrita, e por ser massa a opinião não é própria. Em contrapartida os seres que gostam dos mesmos seres, que um dia foram artistas, que foram sensíveis... onde estão? Eu só queria saber se ainda existe essa imagem, porque a imagem que acho que as pessoas têm dos gays hoje é sempre erótica, sempre dois homens na cama e coisa e tal, caramba, para ser o que se é precisa estar sempre acompanhado? Não! E como isso me revolta. Esse meu tempo de recolhimento que me culparia se eu fosse na parada esse ano veio em boa hora, ano que vem talvez eu esteja mais preparado. Vou reciclar um texto, é tempo de se saber... não existem homossexuais!

Não existem Homossexais

João Pereira Coutinho

"Acreditar que um adjetivo se converte em substantivo é uma forma de moralismo pela via errada
NÃO CONHEÇO homossexuais. Nem um para mostrar. Amigos meus dizem que existem. Outros dizem que são. Eu coço a cabeça e investigo: dois olhos, duas mãos, duas pernas. Um ser humano como outro qualquer. Mas eles recusam pertencer ao único gênero que interessa, o humano. E falam do "homossexual" como algumas crianças falam de fadas ou duendes. Mas os homossexuais existem?
A desconfiança deve ser atribuída a um insuspeito na matéria. Falo de Gore Vidal, que roubou o conceito a outro, Tennessee Williams: "homossexual" é adjetivo, não substantivo. Concordo, subscrevo. Não existe o "homossexual". Existem atos homossexuais. E atos heterossexuais. Eu próprio, confesso, sou culpado de praticar os segundos (menos do que gostaria, é certo). E parte da humanidade pratica os primeiros. Mas acreditar que um adjetivo se converte em substantivo é uma forma de moralismo pela via errada. É elevar o sexo a condição identitária. Sou como ser humano o que faço na minha cama. Aberrante, não?
Uns anos atrás, aliás, comprei brigas feias na imprensa portuguesa por afirmar o óbvio: ter orgulho da sexualidade é como ter orgulho da cor da pele. Ilógico. Se a orientação sexual é um fato tão natural como a pigmentação dermatológica, não há nada de que ter orgulho. Podemos sentir orgulho da carreira que fomos construindo: do livro que escrevemos, da música que compusemos. O orgulho pressupõe mérito. E o mérito pressupõe escolha. Na sexualidade, não há escolha.

Infelizmente, o mundo não concorda. Os homossexuais existem e, mais, existe uma forma de vida gay com sua literatura, sua arte. Seu cinema. O Festival de Veneza, por exemplo, pretende instituir um Leão Queer para o melhor filme gay em concurso. Não é caso único. Berlim já tem um prêmio semelhante há duas décadas. É o Teddy Award.
Estranho. Olhando para a história da arte ocidental, é possível divisar obras que versaram sobre o amor entre pessoas do mesmo sexo. A arte greco-latina surge dominada por essa pulsão homoerótica. Mas só um analfabeto fala em "arte grega gay" ou "arte romana gay". E desconfio que o imperador Adriano se sentiria abismado se as estátuas de Antínoo, que mandou espalhar por Roma, fossem classificadas como exemplares de "estatuária gay". A arte não tem gênero. Tem talento ou falta de.
E, já agora, tem bom senso ou falta de. Definir uma obra de arte pela orientação sexual dos personagens retratados não é apenas um caso de filistinismo cultural. É encerrar um quadro, um livro ou um filme no gueto ideológico das patrulhas. Exatamente como acontece com as próprias patrulhas, que transformam um fato natural em programa de exclusão. De auto-exclusão.
Eu, se fosse "homossexual", sentiria certa ofensa se reduzissem a minha personalidade à inclinação (simbólica) do meu pênis. Mas eu prometo perguntar a um "homossexual" verdadeiro o que ele pensa sobre o assunto, caso eu consiga encontrar um no planeta Terra."

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