Dias Perfeitos

... eu pensei em mim, eu pensei em ti, eu chorei por nós...

"-O que é que se consegue quando se fica feliz?" (Clarice Lispector)

Talvez a grande descoberta da humanidade seria andar à frente do tempo para não ter que esperar que os sonhos se realizem, mas sonhos são sonhos porque temos que esperar por eles, porque temos que fazer por onde, lutar, perder, erguer, lutar... até vencer. Enquanto isso os olhos ecoam pelas ruas, vemos e não somos vistos, nos vêem e não percebemos, até que um dia num insuspeitável lugar tudo se inicia, uma alma bebe da outra, um olho cega um instante, nos perdemos, por acaso sim, não são assim as paixões? Mas se um erro quebra um momento? E melhor, se não era erro? Uma inconsistência, uma fragilidade, por onde se condena? Mais lindo é o perdão, o romper das barreiras, o entendimento e a nova conquista. Foram só definições, palavras... câncer poderia se chamar gripe, amor poderia se chamar ódio, são só definições. Eu queria sinceramente o perdão, te ver livre dessas chateações que tem de mim, muita coisa se salva e eu ainda lembro do seu perfume.


"Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu queria amar o que eu amaria - e não o que é. É também porque eu me ofendo a toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato para mim.
Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente.
Talvez eu tenha que chamar de "mundo"esse meu modo de ser um pouco de tudo.
Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário(...). Eu que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse. Porque eu, que de mim só consegui foi me submeter a mim mesma, pois sou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu."
(mais Clarice)

0 comentários: