No porto também existem histórias, se você navegador sabe das histórias do além-mar eu sei das minhas, às vezes eu ficava por aqui mesmo, na minha praia apareceram alguns viajantes, uns eu apenas espreitei, outros se foram no canto da sereia ou junto a ressaca do mar, às vezes eu ia até a margem gritava e gritava, mas já não havia mais nada, o horizonte já havia escondido tudo ou então se afogavam por conta própria, aos meus olhos era assim. Mas, em um fim de noite quando a lua estava branca e pra lá da margem as crianças brincavam, uma luz se aproximava do porto, eu que estava com os pés na água nem percebi quando você, em grande navio lançava sua âncora bem ali perto de mim. Lembra quanto tempo eu demorei para perceber? É porque eu já não esperava, ou porque uma maresia diferente naquela noite me embriagou, e foram dias e dias de festas, foi pouco tempo é verdade, porém o necessário para marcar mais uma história feliz. A inconstância das marés te levou antes que eu pudesse estar são de novo, foi o suficiente para passar algumas estações, não todas é certo e eu novamente fiquei, fiquei aqui. Nem sei o que eu tinha nas mãos, mas eu vi você fugir e nada pude fazer. Não, não é lamentação, longe disso, não ficou nenhum vazio, ficou o aprendizado tudo isso é para marcar a saudades, a tão discutida saudades, essa que eu sinto de você que se foi sem nem dizer adeus... mas eu aceno minhas despedidas com a vontade imensa que você seja feliz em outros portos. Porque aqui as histórias não param, sempre nasce uma entre o sal da lágrima, entre o sal do mar... e eu não esquecerei você.
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mão à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade, uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade
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